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Saúde mental na restauração: quando o trabalho começa a pesar demasiado

Horários longos, cansaço acumulado, pressão e uma vida demasiado presa ao trabalho. Um relato pessoal sobre saúde mental na restauração e os sinais que não devem ser normalizados.

O GERENTE12 de agosto de 20269 min de leitura
Saúde mental na restauração: quando o trabalho pesa
equipa, O Gerente

Saúde mental na restauração é um tema que durante muitos anos quase não tinha nome. Horários intermináveis, pessoas afastadas da família, relações destruídas, exaustão, consumo de substâncias e profissionais completamente presos ao trabalho eram muitas vezes tratados como parte normal da profissão.

Não deviam ser.

Este artigo nasce de um episódio diferente do Prato do Dia. Não é uma aula, nem pretende substituir acompanhamento médico ou psicológico. É um relato pessoal de Hélder Santos, baseado em mais de duas décadas de experiência na restauração e na hotelaria, sobre aquilo que viu nos outros e aquilo que acabou por reconhecer em si próprio.

Durante muitos anos, achámos que aquilo era normal

Hélder começou a trabalhar em cozinha no início dos anos 2000. Nessa altura, ser cozinheiro tinha uma realidade muito diferente daquela que hoje aparece muitas vezes nas redes sociais.

Os horários eram duros. Havia semanas quase sem descanso. Muitos profissionais viviam completamente agarrados ao trabalho e afastavam-se progressivamente da família, dos relacionamentos e da própria vida fora do restaurante.

E havia uma espécie de normalização de tudo isso.

Quando alguém estava completamente esgotado, irritado ou emocionalmente instável, ouvia-se muitas vezes que «os cozinheiros são assim» ou que era do calor, da pressão ou da profissão.

Na altura, raramente se falava de saúde mental.

Há histórias que ficam para sempre

Ao longo desses anos, Hélder viu colegas extremamente competentes perderem-se pelo caminho.

Um chefe com quem trabalhou dedicava-se de forma absoluta ao trabalho. Quando a empresa fechou, culpabilizou-se profundamente. Acabou por tirar a própria vida.

Outros profissionais acabaram presos a consumos que lhes destruíram a carreira e a vida pessoal.

Hélder recorda também um colega que passava períodos tão longos no hotel durante o verão no Algarve que quase não via a filha. Um dia, a criança entrou na cozinha e correu para o colo do pai.

Naquele momento podia parecer apenas uma imagem bonita. Anos depois, a pergunta é outra:

Será que valeu a pena?

Quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço

Mais tarde, já fora da cozinha e a trabalhar na direção de comidas e bebidas, Hélder começou a reconhecer alguns sinais em si próprio.

Chegava a trabalhar períodos quase sem folgar. A pressão por resultados era constante e, muitas vezes, não existiam processos, informação financeira ou ferramentas suficientes para gerir a operação como devia.

O cansaço foi acumulando.

Até acontecer uma coisa aparentemente pequena: uma assistente começou a responder a pensamentos que Hélder ainda nem se lembrava de ter dito em voz alta.

Não estava a adivinhar.

Hélder estava tão cansado que começou a verbalizar aquilo que pensava sem se aperceber. Tinha dificuldades em memorizar informação, organizar ideias e até recordar se já tinha almoçado.

Foi aí que percebeu que alguma coisa tinha de mudar.

A restauração não pode exigir que uma pessoa desapareça dentro do trabalho

Uma das ideias mais fortes deste episódio não é sobre produtividade. É sobre limites.

Existem profissionais que chegam a casa e descarregam a pressão em pessoas que não têm responsabilidade nenhuma pelo que aconteceu durante o serviço.

Existem pessoas que deixam de estar verdadeiramente presentes com a família porque a cabeça continua presa ao restaurante.

Existem profissionais que comem sem sequer reparar no que estão a comer, conduzem com a cabeça noutro lado e vivem durante meses num modo quase automático.

Quando isto acontece, não devia ser tratado como medalha de esforço.

É um sinal de que alguma coisa não está bem.

Processos também protegem pessoas

Ao mesmo tempo que trabalhava em hotéis, Hélder fazia trabalhos de consultoria para empresas onde existiam processos muito mais claros.

A diferença era evidente.

Quando responsabilidades, rotinas e formas de trabalhar estavam definidas, a pressão deixava de depender tanto da memória, da improvisação e da capacidade individual de apagar fogos todos os dias.

Isto não significa que processos resolvam desafios de saúde mental. Não resolvem.

Mas uma operação desorganizada pode aumentar desnecessariamente o desgaste de quem trabalha nela.

Quando tudo depende de alguém se lembrar, decidir, corrigir e supervisionar constantemente, o peso acumula-se.

Por isso, organizar um restaurante não serve apenas para melhorar lucro ou eficiência. Também pode evitar que determinadas pessoas tenham de carregar a operação inteira às costas.

Um gerente não é um tapa-buracos

Outra reflexão que surgiu dessa fase foi sobre o papel da liderança.

Um gerente ou diretor não existe apenas para garantir que o serviço acontece, resolver faltas, supervisionar eventos ou apagar incêndios.

Tem de conseguir criar impacto no negócio.

Para isso, precisa de responsabilidade, informação e autonomia suficientes para fazer o seu trabalho.

Quando uma empresa exige resultados mas impede quem lidera de implementar mudanças, cria uma situação difícil: existe responsabilidade sem verdadeira capacidade de decisão.

Foi também por isso que Hélder decidiu, a determinada altura, trabalhar apenas em contextos onde pudesse realmente fazer o trabalho para o qual tinha sido contratado.

Pequenas mudanças pessoais ajudaram, mas não são receita para ninguém

Quando percebeu que estava esgotado, Hélder começou a fazer pequenas alterações na forma como vivia o dia.

Quando se sentava para comer, tentava estar realmente naquele momento. Quando conduzia, concentrava-se na condução. Começou a criar espaço para coisas simples fora da rotina de trabalho.

No caso dele, essas mudanças ajudaram.

Mas isso não transforma esta experiência numa recomendação clínica.

Hélder não é médico nem terapeuta. O próprio episódio insiste nisso.

Se alguém se identifica com sinais de exaustão, dificuldade em gerir pensamentos, perda de memória, irritabilidade constante ou sensação de estar completamente preso ao trabalho, procurar ajuda profissional pode ser um passo importante.

A pandemia fez muita gente olhar para a vida de outra forma

Durante a pandemia, muitos profissionais da restauração e da hotelaria foram obrigados a parar.

Para algumas pessoas, foi também uma oportunidade inesperada de voltar a descobrir coisas que tinham desaparecido da rotina: estar em casa, passar tempo com a família, cozinhar sem pressão, descansar ou simplesmente ter tempo.

Depois disso, muita gente passou a olhar de outra forma para aquilo que está disposta a aceitar no trabalho.

E as empresas também precisam de perceber essa mudança.

Salário continua a ser importante. Mas não é a única coisa que uma pessoa avalia quando decide ficar ou sair.

O restaurante precisa de resultados. As pessoas também precisam de uma vida

Restauração é uma atividade exigente. Isso não vai desaparecer.

Existem serviços difíceis, horários duros, épocas de grande intensidade e decisões que têm de ser tomadas sob pressão.

Mas existe uma diferença entre uma profissão exigente e uma cultura onde destruir-se pelo trabalho é visto como normal.

Um restaurante sustentável não pode depender permanentemente do desgaste extremo das pessoas que lá trabalham.

E isso vale para cozinheiros, empregados de mesa, gerentes, diretores e donos.

Perguntas que vale a pena fazer

  • Quando sai do restaurante, consegue realmente desligar?
  • O trabalho está a afetar a relação com a sua família?
  • Tem descansado ou anda apenas a sobreviver entre serviços?
  • Começa a sentir dificuldade em concentrar-se ou memorizar coisas simples?
  • A irritação do trabalho está a aparecer fora do restaurante?
  • A operação depende demasiado de uma ou duas pessoas?
  • Existem processos que poderiam retirar pressão desnecessária à equipa?

Não é preciso esperar por uma situação extrema para começar a fazer estas perguntas.

Saúde mental na restauração não devia ser um assunto estranho

Durante demasiado tempo, comportamentos preocupantes foram tratados como parte normal da profissão.

Hoje sabemos pelo menos uma coisa: trabalhar muito não torna ninguém imune ao cansaço, à exaustão ou à necessidade de ajuda.

E reconhecer isso não diminui ninguém enquanto profissional.

Este episódio não pretende ensinar saúde mental. Pretende apenas abrir uma conversa que durante muitos anos quase não existiu na restauração.

Se alguma parte desta história lhe parece familiar, talvez valha a pena não a ignorar.

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