A inteligência artificial nos restaurantes pode poupar tempo, organizar informação e ajudar a tomar decisões. Mas existe um risco que começa a aparecer cada vez mais: confiar numa recomendação apenas porque foi produzida por uma ferramenta que sabe fazer contas.
Matematicamente, a resposta pode estar certa. Estrategicamente, pode não fazer sentido para aquele restaurante.
É esta diferença que interessa perceber.
A inteligência artificial não substitui uma forma de gerir
Antes de existirem as ferramentas de inteligência artificial que hoje aparecem em todo o lado, já existiam softwares de gestão para restaurantes.
E esses softwares já faziam cálculos, apresentavam indicadores e ajudavam empresários a tomar decisões.
O desafio nunca esteve apenas na capacidade de calcular.
Está na forma como aquela informação é interpretada e na decisão que vem a seguir.
Duas ferramentas podem chegar a cálculos corretos e, mesmo assim, trabalhar segundo formas diferentes de gerir um restaurante.
Uma conta certa pode levar a uma decisão errada
Imagine uma ferramenta que deteta que determinado produto aumentou 1,20 € e recomenda automaticamente aumentar o preço no menu também em 1,20 €.
A conta pode parecer lógica.
Mas isso não significa que a decisão seja correta.
Subir preços não deve ser uma reação automática a cada aumento de custo. É preciso perceber a estrutura do prato, a margem, o posicionamento do restaurante, o comportamento do cliente e a estratégia que está a ser seguida.
Uma ferramenta pode calcular. A decisão continua a precisar de contexto.
É preciso perceber como a ferramenta pensa
Quando um empresário recebe uma recomendação de uma ferramenta de inteligência artificial, deveria fazer uma pergunta simples:
Como é que esta ferramenta chegou aqui?
Por exemplo, quando apresenta um food cost, que informação utilizou?
- Cruzou apenas compras com vendas?
- Teve acesso ao inventário?
- Que período está a analisar?
- Que dados considera na conta?
Dependendo da informação disponível, o valor apresentado pode significar coisas diferentes e exigir decisões diferentes.
Há várias formas de gerir o mesmo indicador
Nem todas as diferenças entre ferramentas significam que uma está certa e a outra está errada.
Podem simplesmente seguir métodos diferentes.
Em O GERENTE, por exemplo, não costumamos colocar custos fixos diretamente nas fichas técnicas. Existem profissionais e sistemas que trabalham dessa forma.
Também preferimos analisar o ticket médio por cliente, enquanto existem softwares que trabalham o ticket médio por mesa.
Isso não significa automaticamente que uma das abordagens esteja errada.
Significa que é preciso perceber qual é a lógica da ferramenta e se essa lógica coincide com a forma como o restaurante pretende gerir.
Não siga uma ferramenta cegamente
A facilidade de acesso à inteligência artificial criou uma situação curiosa.
Empresários que anteriormente não tinham um sistema de gestão financeira estruturado passaram a ter acesso imediato a análises, cálculos e recomendações.
Isso é positivo.
Mas também pode criar uma falsa sensação de segurança.
Ter uma resposta rápida não significa necessariamente ter a melhor resposta.
Antes de executar uma recomendação, convém perceber:
- Que dados foram usados.
- Como foram feitos os cálculos.
- Que estratégia está por trás da recomendação.
- Se essa estratégia faz sentido para aquele restaurante.
Onde a inteligência artificial pode poupar muito tempo
Existem utilizações em que o ganho é muito claro.
Ferramentas que permitem falar diretamente para o telemóvel, fotografar faturas, registar informação ou organizar documentos podem reduzir bastante trabalho administrativo.
Na ferramenta usada com restaurantes acompanhados por O GERENTE, por exemplo, existem funcionalidades que permitem introduzir informação desta forma e acompanhar números e alertas.
Esse tipo de utilização é diferente de aceitar automaticamente uma decisão estratégica.
Uma coisa é tornar a recolha e organização de dados mais rápida. Outra é decidir o que fazer com esses dados.
Porque a aplicação de O GERENTE está ligada ao acompanhamento
A ferramenta usada atualmente com os participantes da Academia Restaurante Vencedor não funciona isoladamente da forma como ensinamos gestão.
Os empresários aprendem primeiro a interpretar números e a tomar decisões segundo a mesma lógica que está por trás da ferramenta.
Isso permite que pessoa e tecnologia trabalhem segundo a mesma forma de pensar.
A aplicação ajuda a organizar informação, acompanhar indicadores e disponibilizar alertas. A estratégia continua a ser explicada e acompanhada por Hélder Santos e Sérgio Araújo.
É por isso que, nesta fase, a ferramenta é utilizada dentro da Academia.
A tecnologia ajuda. A responsabilidade continua a ser do empresário
A inteligência artificial vai continuar a ganhar espaço na gestão dos restaurantes.
E faz sentido que assim seja.
Pode reduzir trabalho, acelerar análises e colocar informação útil nas mãos de quem gere.
Mas quanto mais poder damos à ferramenta, mais importante se torna perceber o que ela está realmente a fazer.
Se uma ferramenta recomenda alterar preços, contratar pessoas, cortar custos ou modificar um indicador, não basta perguntar se a conta está certa.
É preciso perguntar se aquela decisão faz sentido dentro da estratégia do restaurante.
Perguntas a fazer antes de seguir uma recomendação de inteligência artificial
A inteligência artificial para restaurantes é fiável?
Pode produzir cálculos e análises úteis quando recebe dados corretos. Isso não significa que todas as recomendações estratégicas sejam adequadas a todos os restaurantes.
Uma ferramenta de IA pode calcular o food cost?
Pode, mas é importante perceber que dados está a utilizar. Um cálculo baseado apenas em compras e vendas pode ter uma leitura diferente de outro que inclua inventário.
Devo alterar preços quando a inteligência artificial recomenda?
Não automaticamente. Primeiro deve perceber porque surgiu essa recomendação e se ela faz sentido para a margem, posicionamento e estratégia do restaurante.
Qual é a principal vantagem da IA na gestão de restaurantes?
Uma das maiores vantagens é facilitar a recolha, organização e leitura da informação, reduzindo trabalho administrativo e tornando os dados mais acessíveis.
A inteligência artificial substitui um consultor ou gerente?
No contexto explicado neste episódio, não. A ferramenta pode apoiar análises e decisões, mas continua a ser necessário perceber o negócio, a estratégia e a realidade concreta do restaurante.
Antes de confiar na resposta, perceba a lógica
O maior risco não está em usar inteligência artificial.
Está em não perceber como ela chegou à recomendação que está a apresentar.
Uma ferramenta pode estar matematicamente certa e, ainda assim, trabalhar segundo uma lógica que não é a sua.
Por isso, antes de seguir qualquer recomendação, perceba os dados, o cálculo e a estratégia que estão por trás dela.
A tecnologia deve ajudar o empresário a decidir melhor. Não decidir por ele sem que ele perceba porquê.
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